quarta-feira, 5 de março de 2014


Cidade Solidária

Há algum tempo eu presenciei um acontecimento entre três mendigos que me deixou bastante reflexivo:

Eu estava no ponto de lotação da praça Cel. Ribeiro, aqui em Montes Claros, quando vi um senhor estacionar seu belo carro e entregar a um mendigo um bonito embrulho e felicita-lo pela passagem do Natal, para logo em seguida retirar-se. O mendigo imediatamente abriu o embrulho, era um panetone muito fino. Deu uma mordida e, para surpresa dele, detestou o produto. Olhou para o lado e deparou-se comigo e outro mendigo comendo acarajé. Convidou-nos para provar do panetone. Eu recusei, mas o mendigo que estava ao meu lado provou do panetone e como o outro, também, não gostou. Em retribuição deu o restante do acarajé para o dono do panetone que se deliciou com o pequeno pedaço. Ficaram os dois conversando ate passar um transeunte todo sujo e esfarrapado, desse tipo que ignoramos e fazemos conjecturas a respeito, empurrando um carrinho de madeira cheia de papelão e latas. Como o elemento tinha um semblante muito carrancudo, talvez pela fadiga e cansaço, os outros dois, um pouco desconfiado, ficaram inseguros em abordá-lo, mas com um certo esforço ofereceram a ele um pedaço de panetone. O homem olhou, como não sabendo o que era aquilo, mas aceitou e, ao contrário dos dois, adorou e comeu muito do panetone. Em agradecimento, tirou de dentro do carrinho um pão de sal murcho recheado com salame e deu para os dois, que não só aceitaram, como se deliciaram com o novo lanche. Despediram-se e cada um tomou seu rumo.

Os povos se fecharam nos seus mundos e a cada dia se isolam cada vez mais dos seus semelhantes. Mas aqui em Montes Claros, onde existem hoje todas as coisas que chamam a atenção para sinais encantadores de uma boa vida, se não na infraestrutura ainda, pelo menos na convivência harmoniosa entre os seus moradores, ultimamente tem me chamado a atenção as atitudes de amor e solidariedade dos seus moradores.

Pessoalmente tenho vivenciado muitas situações bonitas. Nesse caso dos dois mendigos, pode ter sido um acontecimento banal, mas sinceramente eu fiquei emocionado e não consigo tirá-lo do meu pensamento. Eu, que leio muito, não encontrei em nenhum romance, em nenhum livro de autoajuda, em nenhuma tradução de estórias estrangeiras, nada que me marcasse tanto. Talvez por não ter sido um enredo fictício, talvez por ter sido uma cena real, palpável e bem na minha frente.

Quando as pessoas são solidárias, uma boa ação sempre provoca outras. Um presente oferecido por um senhor desencadeou uma sucessão de pequenos bons gestos. E se hoje estou expondo esses fatos, é apenas para deixar claro que devemos mudar nossas opiniões a respeito dessas pessoas ou pelo menos rever essas opiniões. Devemos não ser tão indiferentes a essas “pessoas nojentas” que, no nosso modo de entender, só bebem, roubam e estragam a imagem da cidade. Devemos ficar mais atentos a quem de fato rouba e denigre a imagem da cidade. Será quem são de fato os nojentos? Quem são os “engravatados e limpinhos?...” Eu vejo tantos políticos, intelectuais e artistas apregoando a solidariedade e o amor, o que acho até louvável da parte deles, mas será que palavras e suas “influências” resolvem alguma coisa? Para que tantas conversas, tantas reuniões e tantos “grandes acontecimentos”, para depois levar essas grandezas ao confinamento em seus mundos?

O que sei, é que homens que estão à margem da sociedade, passando fome, sentindo frio nas madrugadas nos bancos de praças, esses homens, que tinham todo direito à revolta interior, à amargura e ao ódio, é que me mostraram, pela naturalidade dos seus gestos, que a solidariedade desinteressada é que é a expressão pura do amor.

É claro que a lembrança desse acontecimento não me traz só imagem agradável. Sempre trará a imagem de homens esfarrapados e sujos, que vivem num sofrimento anormal, num isolamento absoluto, incompreendido pela nossa insensatez hostil.

Mas Graças a Deus, como eu dizia no princípio, aqui em Montes Claros vem se instalando uma consciência mais humana, despertada por um espírito de mais espontaneidade nas relações interpessoais. Apesar de ser uma das maiores cidades do Estado de Minas Gerais, apesar de toda evolução tecnológica e de aqui ser um berço cultural riquíssimo, nos recusamos a ser influenciados por essa sinistra maneira de amputar o contato direto com as pessoas.

Desejo a todos nós, não só os montes-clarenses, que esses costumes de solidariedade que temos por aqui, se fundem cada vez mais com os aspectos bons da evolução e tecnologia, pra nos fundamentar, cada dias mais, no trabalho da paz e do amor com os nossos semelhantes.

Se é insensato e errado sequer pensar que alguém possa viver apenas para arruinar a vida do próximo, então, está na hora de levar não só os nossos pensamentos como as nossas ações mais a sério e expressá-los na ponderação, decência e humanidade. Que comecemos dos nossos quintais e gradativamente espalhemos pela cidade de fora a fora.

Pode até parecer um sonho, mas com esses dons intrínsecos do norte-mineiro e com essa nova consciência, acho que nós aqui da região teremos a chance de ver tudo melhorar.

É claro que não conseguiremos acabar com a mendicância e com a miséria, pois a cidade é grande e convidativa, mas não podemos conformar com a indiferença e desprezo por essas pessoas. Enquanto um elemento desses sentir frio e passar fome, temos que nos manifestar e ajudá-los, de qualquer maneira. Nós que queremos bem a Montes Claros e a quem vier morar nela, temos o dever de fazer valer a velha máxima: “Que a vida valha a pena de ser vivida”.

Em nome desse sublime instinto arraigado em nosso ser, é que me embasa a esperança de uma vida melhor para nossos conterrâneos e estrangeiros que moram nesta cidade – esta sim, maravilhosa!

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