segunda-feira, 7 de abril de 2014

Barzinhos

De todos os barzinhos que me foi dado conhecer nos meus caminhos, dois foram de longe e sem a menor dúvida os mais extraordinários que conheci: Barzinho Skalla e barzinho do Tio Pedro, ambos localizados na Vila Guilhermina, aqui em Montes Claros. De propriedade de Reinaldo e Haroldo. Figuraças que se tornaram grandes amigos meus.Todo boteco tem cenas pitorescas, mas no caso do Skalla e do Tio Pedro eram especiais, pois quase sempre os seus proprietários é que são os protagonistas dos acontecimentos.

De uma forma geral, o botequeiro não pode ser um homem como qualquer outro. É preciso que ele tenha, antes de qualquer coisa, uma boa dose de paciência e muito carisma. No caso dos proprietários dos barzinhos aqui citados, não faltavam essas qualidades, mas como tudo na vida tem limite, ás vezes eles não se continham.

Vou narrar alguns acontecimentos que eu presenciei:

No barzinho Skalla, duas moças estavam bebendo, e na hora de acertar a conta houve um impasse: uma das moças alegava que Reinaldo estava cobrando uma cerveja a mais, fato que muito o irritou, mas tentando manter a calma explicava que ele não estava enganado e que a conta era aquela mesma. A moça não concordava de jeito nenhum e insinuou que ele estava roubando. Ele perdeu a paciência e começou a discutir freneticamente por muito tempo. Eu e a moça amiga da outra que discutia, tentamos interferir e nada deles nos escutarem, continuando a discussão. Já passado algum tempo, e com os argumentos xingatórios se esgotando, a moça, visivelmente abatida, encerrou dizendo:

_ Vou parar por aqui, seu grande idiota!
Reinaldo para não sair perdendo na discussão, por fim, disse:
_ Idiota? Idiota? Idiota está no meio de suas pernas!

Nesse mesmo barzinho, eu me lembro de uma noite ter recebido dos dois proprietários R$40,00 (Quarenta reais) de cada um que, coincidentemente, me pagavam uma dívida contraída há alguns dias e me pediram para não comentar que haviam me pagado. Até aí, tudo bem. Só que ficamos tomando cerveja até mais tarde e já quando fechavam o caixa, apontava uma diferença contra eles de R$80,00 (Oitenta reais), justamente o valor que recebi deles. Provavelmente ambos pegaram o dinheiro do movimento daquele dia sem comunicar um com o outro, mas como tinham a consciência pesada, não comentaram muito sobre o "prejuízo". Ambos olharam para mim desconfiados, e resignados com o ocorrido disseram: "Deus nos proverá"
O barzinho do Tio Pedro, que antes era de propriedade de minha amiga Tereza, que hoje mora em Caraguatatuba, no litoral paulista, também era o nosso ponto de encontro. Rei e Haroldo depois de irem à bancarrota no Skalla, tentaram uma nova investida e o compraram de Tereza.

Nesse barzinho, o muro tinha na sua parte interna várias pinturas bonitas, o que decorava o barzinho no seu interior. Dentre as várias figuras desenhadas, tinha a de uma fazenda cheia de gado, com um curral de cerca de arame, na qual tinha uma das fileiras arrebentadas, o que deixava a pintura muito original. Estava a turma toda tomando uma cervejinha próxima ao balcão de atendimento, tendo como assunto principal a dor de cotovelo que um dos nossos amigos curtia. Ele estava sentado propositadamente afastado de nós, bem próximo ao muro, quando de repente ele se levantou e saiu em disparada rua a fora, nos deixando embasbacados com a sua atitude. Tivemos que pegar um carro e já alcançá-lo depois da rodoviária, todo ofegante e trêmulo. O levamos de volta e lhe demos um bom banho para recuperá-lo da embriaguez, e quando um pouco melhor ele tentava explicar que correu, porque estava com a camisa vermelha e viu uma das vacas sair do muro, bufando de raiva em sua direção. Começávamos todos a nos preocupar com o seu estado psíquico, uma vez que uma semana a estes fatos ele tinha batido de frente no muro com sua motocicleta, no desenho de uma estrada que tinha ao lado do portão. Mas verificamos mais tarde, que não era nada sério. Quando reatou o namoro com sua grande paixão, voltou a beber pouco e controlar os impulsos. "Cada um curte a dor de cotovelo a sua maneira, ora essa", dizia ele, quando a turma pegava no seu pé para gozá-lo de suas atitudes poucos convencionais.

E por falar em atitudes não convencionais, esse nosso mesmo amigo, que é o sujeito mais "pão-duro" que se pode conhecer, conseguiu irritar Haroldo, sócio de Reinaldo, que é o sujeito mais calmo desse mundo. Haroldo, para morrer de repente, deve demorar três dias, no mínimo. Estávamos tomando uma cervejinha, eu, Haroldo e o dito cujo quando de repente o celular dele tocou, e a namorada exigiu a sua presença em certo lugar, imediatamente. Tínhamos tomado apenas uma cerveja, e ele queria pagar a parte dele na conta, e não sabia o valor. Propusemos a ele dividir o valor da cerveja por três. Ele não concordava, alegando que estava saindo e ainda tinha cerveja na garrafa, e que dessa forma ele pagaria mais do que devia. Haroldo propôs pagar a cerveja, mas eu, de picardia, dei a entender a Haroldo que não pagasse, só pra ver até onde ele chegaria. Pois ele, com a ajuda de uma calculadora, fez uma regra de três composta e mais algumas outras contas para, com precisão, afirmar que tinha consumido apenas 112 ml. Dividiu o valor da cerveja pelo seu volume líquido e depois multiplicou pela tanto que bebeu. Nesse ínterim, a sua namorada já havia ligado mais umas quatro vezes, e eu e Haroldo tomamos mais umas três cervejas.

Pode parecer conversa de botequeiro, mas todos esses três casos foram a pura verdade.


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