sábado, 21 de março de 2015

Concepção de religiosidade

_ Charles, por que você parou de freqüentar as igrejas?

_ Porque achava que poderia encontrar na igreja algo que poderia me ajudar a desobstruir um ponto escuro de minha personalidade, mas logo me senti superficial e estúpido.

_ Não entendi!

_ Chegando lá, ao invés de eles me ajudarem a desobstruir esta parte obscura da minha personalidade, eles queriam eram extirpá-la completamente. Eu estava apenas um pouco triste. Queria me aliviar um pouco dessa tristeza e eles queriam que eu me julgasse um hospedeiro de horrores, que eu tivesse a consciência de um grande fracasso, queriam manipular meu livre-arbítrio para me punirem e tê-los como meu consolo.

_ Eu também procurei quase pelo mesmo motivo e encontrei na religião a felicidade e tudo de importante.

_ Sim, essa concepção de espiritualidade é muito relativa. Cada um enxerga com um prisma pessoal. Eu não me absteria tanto para encontrá-la. Quando uma pessoa encontra uma coisa importante na vida, não quer dizer que precise renunciar a todas as outras. Geralmente as pessoas fazem isso com a religião e com o casamento e não conseguem manter a felicidade por muito tempo. Elas exigem fuga da rotina.

_ Mas você não acha que independentemente dos métodos usados nas igrejas ou nos templos, o que vale é a nossa intenção ao procurar e também a fé que a gente carrega dentro de nós?

_ Eu acho. É justamente a inocência do fiel que o salva. Talvez eu não tenha essa inocência. O que pude perceber é que a filosofia dos homens das igrejas é justamente de lhe mostrar que você não tem nenhuma fé e que precisa desesperadamente da ajuda deles. Eu disse “deles” e não de Deus.

_ Como assim?

_ Nos padres, reverendos, pastores, etc., a vaidade é tanta que o amor de ser idolatrado por nós é mais forte que a fé que eles deveriam ter em Deus e dos ensinamentos que eles deveriam nos passar.

_ Minha mãe é evangélica, vai aos cultos quase todos os dias. Eu sou católica e vou as missas toda semana. Tanto eu, quanto ela, nos sentimos muito bem. Não percebemos isso.


_ Ótimo! Eu também queria conseguir isso.

_ Por que não volta freqüentar às igrejas com uma nova perspectiva? Talvez você se condicionou a tomar por certo essas suas impressões.

_ Ainda não. Como eu disse ainda me falta a inocência necessária.

_ Então existem muitos inocentes, pois a cada dia as igrejas estão mais lotadas e freqüentadas diariamente pelos fiéis.

_ As pessoas, hoje, são criadas num sistema de que basta freqüentar igrejas e pronto, você estará cumprindo as suas obrigações espirituais. Quanto ao fato de ir à missa toda semana, não quer dizer muito. Tem pessoas que vão todos os dias, isso não tem nada a ver com fé e satisfação. Tem gente que não vai dia nenhum e também se sente bem. Tem pessoas que cheiram religião e não sabem o que é Deus. Muitas pessoas vão por ser vítimas de um sistema mecanizado contínuo sem ter certeza de saber o que vão encontrar. Aquela estória: “ Religião? Todo mundo tem, deve ser o certo”. Outras vão porque sabem que vão encontrar  alguém que pode inspirar simpatia e há quem vá apenas por achar aquilo tudo parecido com uma cena teatral gratuita.

_ Mas há muitos que vão porque realmente se sentem bem. É o meu caso, repito.

_ Claro, alguns vão porque realmente se encontram lá. O que eu estou querendo lhe dizer é que não precisamos de submissões para esperar pela glória ou pela paz. Ah! Eu ia me esquecendo, há os que procuram certas igrejas porque sabem que não podem chegar puros no inferno.

_ Você está fazendo piadinhas com algo sério.

 _ É sério. O fato de alguém ir às missas todos os dias não o faz um verdadeiro crente. Seria melhor até adiar algumas visitas e praticar alguma boa ação por aí. Primeiro é preciso  ser bom, para depois ser religioso. O que, é claro, não quer dizer que quem freqüenta diariamente, seja ruim. Muitas pessoas vulgares procuram pela igreja, para tentar mascarar a má índole. A usam como uma vestimenta para cobrir  alma bastarda e ímpia.


_ A religião não esconde a verdadeira conduta de ninguém. Mas
não podemos ter a presunção de julgar o teor da fé de alguém.

_ Qual o “teor” que pode existir na fé de um mau caráter?

_ Mas tem pessoas que procuram pela igreja justamente para modelar o caráter de acordo com a decência e dos bons princípios.

_ Claro que sim, mas a igreja não pode representar e querer se passar como a única tábua de salvação. Ela nunca substituirá a interioridade da pessoa. Lá sim as pessoas  estão mais propensas a encontrar Deus. Lá, sim, existe a verdade nua e crua. Quem tiver um caráter que pode ser mudado para o bem, com certeza encontrará consigo primeiro. Lá não existe simulação.

_ Mas é justamente a função da igreja. Fazer com que as pessoas encontrem essa interioridade. Além do mais, tem muitas pessoas que não são maus caráters, apenas comete algum ato errado num momento de  desespero e são convidadas com boa fé para se redimirem  e purificarem com a palavra do Senhor.

_ Sim, e quando chegam lá, como eu já disse, os comandantes das mesmas de propósito deixam transparecer que essas pessoas são mais pecadoras do que imaginam e os deixam mais apavoradas dando entender que eles precisam urgentemente deles. Eu disse “deles” e não de Deus, repito isso novamente. Entende? Eles oferecem a ponte que levam para “ o outro lado ”. Além das pessoas não saberem saber se o lado de lá oferecido é o lado certo, ainda tem que  pagar um caro pedágio pela travessia.

_ Mas realmente essas pessoas precisam de alguém que os esclareçam, você não acha? Graças à Deus as igrejas estão cada vez mais cheias.

_Eu acho. Mas só  que esses que deviam esclarecer vêm é com uma chantagem afetiva que mais tarde será transformada em dinheiro. Depois dessa transformação o pecado vai deixando de ser grave, consoante ao dízimo ou contribuição recebida. E essas pessoas ainda vão ter futuramente a missão de arrebanhar outro irmão e alcançar nele também o pecado para que passe pelo mesmo processo aprisionando-o para depois chantageá-lo. Um, matando a possibilidade da salvação do outro. A lotação de muitas igrejas é proveniente dessa caçada. É a fé sendo traída, mentida, negada. Nessas igrejas não têm projetos de amor, realizações e conquistas. Elas tem com prioridade relações baseadas no desejo financeiro, ignorando o vasto campo espiritual. Os hipócritas não nascem, são produzidos por alucinações religiosas. Eles gritam em demasia em suas igrejas, porque sabem que o silêncio os denunciariam.



_ Mas você não pode generalizar e achar que todos agem dessa maneira.

_ Claro que não. Tem igrejas boas, mas que, deixam no melhor das hipóteses,  a parte espiritual desempenhar um papel secundário. É uma pena ter que admitir que as igrejas de hoje fazem uma concorrência muito grande entre elas, igual comércio mesmo. Qual arrasta mais fiéis?(consumidores) Qual é a mais popular? Coisas assim. E pouquíssimas mostrando os desígnios e norte para os nossos destinos, e nós, os “consumidores da fé” não tem nenhum procon religioso para reclamar. Eles dividiram Deus e cada um acha que tem o pedaço melhor. É impossível viver com fé e felicidade dentro de um conjunto de convicções desse.

_ Você não encontrou nada que lhe enriqueceu espiritualmente nas igrejas?

_ Eu, se não tivesse minha filosofia de vida formada, lá eu tinha perdido a fantasia e o gosto de viver a vida. Segundo a vontade deles morreria sem gozar os prazeres deixados por Deus. Eles não dão o mínimo de liberdade para sermos felizes. A felicidade sem liberdade é impossível. A religião que eu vi por aí é muito parecida com o casamento. Eles não aceitam o ineditismo e as surpresas. Quem não sabe o que é sofrimento, aprende lá dentro. Só que eles tentam ensinar como suportar resignado a canga desse sofrimento. Eles deviam nos ensinar era agir, mas para eles não é conveniente. Eu descobri que não sou tão ruim assim. Mas a visita na igreja me enriqueceu, pois conheci pessoas maravilhosas, humildes e bem intencionadas que hoje são grandes   amigos  meus,  apesar  de  eu  não  mais ser  um “ irmão”.

_Então, na sua concepção não existe religião?

_ Existe! A que se constrói no templo íntimo. É nessa que nasce a fé perfeita.

_ Para você o que é ter fé perfeita?

_ Para mim, todo aquele que vive gostosamente a vida e tem a paixão de induzir aos outros essa sensação. É aquele que não limita o próprio ser. É aquele que não aceita superficialidades. É aquele que não é meio verdadeiro, meio amante, meio sério, meio honesto. É aquele que se não acreditasse, não seria meio ateu.

_ Será que essas pessoas não teriam como todas, um vazio que não sabem explicar?

_ É justamente quem não tem necessidade de preencher esse vazio é os que são os felizes.

_ Você foi na igreja preencher esse vazio?

_ Sim, fui! Lá não enchi o meu vazio, enchi foi o meu saco.

_ Puxa vida, não brinca, repito. E se  a religião for obrigatoriamente o caminho para o céu?

_ Primeiro é preciso entender o que de fato seja religião. Se for a que eu encontrei por aí, aí sim, terei certeza de que Deus não me quer por lá.

_ Você não consegue falar sério? Sinal que deve ter realmente melhorado. Pois o senso de humor seu é ótimo.

_ Falando sério, eu gostaria que você entendesse o que eu estou querendo lhe dizer. É no nosso interior que Deus está, é onde podemos reconhecê-lo e senti-lo arraigado em nosso ser. Depois de encontrar Deus por si mesmo e de si mesmo é que devemos procurar pelas igrejas e tirar de lá os irmãos submissos e juntá-los a nós.  Algumas pessoas, para fugir de uma infelicidade, procuram pelas igrejas, mas lá descobrem que o compromisso assumido com a religião não é um substituto para um compromisso humano. Todos nós queremos  encontrar Deus. Procuramos a religião para isso, mas geralmente elas cobram em troca dessa busca o abandono do mortal comum. A maioria dos chamados fiéis são vítimas dessa presunção de uma fé inabalada se fecham num mundo inacessível, desprezando tudo que não é conveniente aos seus anseios descobertos na igreja. Se a religião não for vivida no nível correto e também não respeitar a nossa parte animal, ela ao invés de nos fortalecer nos deixa vulneráveis a tudo e nunca encontraremos a verdadeira paz, pois ficamos cegos e subordinados à canga de seus dogmas.

_Eu  nunca escutei uma opinião tão extremista com relação a religião na boca de alguém que acredita tanto em Deus, como você.

_ Não é extremismo, não. Para mim a grande tragédia é limitar o ser
humano e fazer concessões. Eu jamais entenderei e aceitarei essas aberrações. O que existe por aí, não é a igreja que Deus imaginou. O que tem aí hoje é um absurdo. Ninguém deve ir ás igrejas de hoje perguntar o que é bom para si mesmo. Essa expressão urgente é encontrada na conseqüência de um encontro com o amor livre e não no aprisionado na conveniência das igrejas. Quantos e quantos erros se praticam em nome de uma fidelidade à certos padres, pastores, bispos, reverendos e sei lá mais o que. Quantas angústias e tormentos e desejos aprisionados para ser admirado por pessoas que por mais que tenham boas intenções não podem substituir  as nossas próprias razões.

_ Todos têm certas obrigações para cumprir, seja ela pessoal, social ou religiosa.



_ Acima dessas obrigações, meu caro, estão todos os nossos prazeres e autenticidades. Ninguém pode deixar de “ser” de verdade, para ser um produto inventado pelos outros. Podemos tudo: Amar, odiar, beijar, cuspir, atiçar fogo, afogar, ascender, declinar, avivar, suicidar. Somos a fronteira do tudo e do nada.

_ Muitos podem cair nesse buraco do nada sem terem a noção do que é fé e religião.

_ Fé e liberdade,  é cair, se preciso for, mas no buraco que nós próprio cavamos. As nossas amarguras, as nossas tristezas e nossas desolações vêm é da satisfação que temos que dar às pessoas, incluindo os religiosos. Desculpa a expressão,  mas “à puta que pariu” todos eles. Nunca mais farei nada por obrigação e imposição dos outros. Se for preciso, pego o meu surrão de couro e vou embora por esse mundão de meu Deus.

_ Meu Deus, as igrejas só existem para ratificar a nossa fé. Os padres, pastores estão lá apenas para pregarem a verdade. Sem essas verdades não somos nada.

_ Não há diferença entre um mentiroso e um pregador de verdades ordinárias. Quem pode acredita, filha, quem não, procura uma igreja. Mas uma coisa eu lhe digo: O Deus dos hipócritas não existe. Ou seja, na igreja, encontra outra coisa e chamam de Deus.

_ Qual é a sua concepção de Deus, papai?

_ Você tem bons sentimentos no coração e quer colocá-los em prática, filha?

_ Claro! Mas você não respondeu minha pergunta.

_ Então, filha. Saia do fanatismo das religiões. Diminua as visitas nos templos e pegue os seus sentimentos e... “Dê-os!”

_ Entendi.

_ Pois é. Dê os bons sentimentos para os outros e sentirá que Deus é tão somente isso. A entrega total de si, que automaticamente se torna um encontro e uma recepção divina. Dê... Dê......Deus.


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