sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013


Requebra que eu te dou um doce!

                                     (A um louco muito especial)

Quem de nós, moradores dos Bairros Morrinhos, Vila Guilhermina e adjacências, aqui em Montes Claros, que já não deparou com o famoso e folclórico Raimundo Requebra, ou simplesmente "Requebra", com o seu exótico e particular jeito de ser.
Há 30 anos morando na Vila Guilhermina, acostumei com o seu palavreado nada convencional, geralmente provocado por alguma criança, que, como eu, nos meus tempos, escondia de algum lugar e gritava: "Ô, requebra!".   Sim, Raimundo adorava rebolar, imitar uma mulher, mas não admitia que o chamassem de Requebra.
Meus filhos hoje, fazem o mesmo. Escondem e quando ele aproxima, gritam e provocam o Requebra, também chamado por alguns de "Xêpa". Mas não são só as crianças que  gostam de provocar o Raimundo, não; nós, adultos, também. Eu, por exemplo, deixava o aparelho de som ligado a toda altura, preparava uma fita cassete de uma banda baiana chamada "Olodum", que tinha uma música que repetia várias vezes o seu apelido, e, quando ele estava por perto, eu apertava a tecla de pausa, que ficava suspensa como uma armadilha, propositadamente preparada para desarmá-la naquele ponto e naquele momento.
Há quase dois anos que o Raimundo requebra desapareceu, cogita-se até como certa a sua morte. Sumiram com Requebra, essa inofensiva criatura vítima de tantas covardias e indiferenças por parte de muitos seres chamados de humanos.

Raimundo, você que já suportou tanto espancamento, até a água fervendo no corpo  já resistiu. Você já suportou absurdos, "Rai", não é possível que liquidaram com você. Não! Se você desapareceu, foi porque bem quis, eu sei.
Cadê você,Raimundo? Você nunca demorou tanto a nos "encher o saco"!   Cadê você, Raimundo, que, através de gestos e gritos, ensinou todos os meus filhos a falar palavrões indecentes? Cadê você, Raimundo, que me obrigava a comprar um maço de cigarros, eu, que não fumo, só para todo dia lhe dar um e ter certeza que o veria, para, na verdade, através de você, saber sobre o meu próprio destino? Cadê você, Raimundo, que uma vez surpreso com um comportamento estranho meu, sabendo que não me era peculiar ficar carrancudo, simplesmente me disse: _Pense, pense, mas depois, dispense, se não você fica doido, viu?

Conversei com muitos a respeito de Raimundo, mas ninguém sabe de completo que é ele. Ele é indizivelmente ameaçado, complicado, frágil. 

Raimundo é só um pressentimento, nunca uma afirmação, é uma nostalgia que se confunde com a própria natureza em busca de sua verdadeira forma e possibilidade, porque sabe que a verdadeira paz não vem dos caminhos racionais.

Quantas vezes eu me pergunto se Raimundo é de fato um doido ou, simplesmente, um homem muito corajoso que vive o perigo, a morte, o medo e anda peregrinando indisciplinado, com sonoras gargalhadas, cheio de sonhos, apenas porque é um enamorado da vida.
Eu não posso imaginar que alguém teve coragem de matar  alguém que só tinha a vida como patrimônio e por isso mesmo tinha como importante só o viver.
Raimundo é amor e a prova dele, porque amor mesmo é sorriso na dor. Raimundo era um eremita, e quem tinha a oportunidade de conversar com ele, como eu, sabia que ele era não só um andarilho inconsciente, ele era acima de tudo, um sábio gozador. Ele foi o último dos extravagantes. Extravagante, por ser autêntico demais.
Se acabaram com o Raimundo é porque sabiam que ele era um herói que jamais iria fugir do seu destino e nem tentaria modificá-lo. Se acabaram com o "Xêpa" é porque morriam de inveja dele ter sido o escolhido pela natureza para ser o humano que representasse e expressasse a liberdade absoluta. Ele era "ele" mesmo.

"Por isso mesmo meu querido Xêpa, paro nesse momento de me lamentar, porque sei que você sempre será "você" onde estiver. Nesse momento, depois de quase um ano de espera, pego novamente aquela fita de olodum que sempre está no ponto de chamar por você, ligo o som, aperto o "play" e onde você estiver, com certeza, curtindo com a cara de alguém, escute como se fosse a voz de nós todos que sentimos saudades de você:


"Requebra, requebra sim, pode falar, poder rir..."


xxxxxxxxxxxxxxx



Cidade Solidária


Há algum tempo eu presenciei um acontecimento entre três mendigos que me deixou bastante reflexivo:

Eu estava no ponto de lotação da praça Cel. Ribeiro, aqui em Montes Claros, quando vi um senhor estacionar seu belo carro e entregar a um mendigo um bonito embrulho e felicita-lo pela passagem do Natal, para logo em seguida retirar-se. O mendigo imediatamente abriu o embrulho, era um panetone muito fino. Deu uma mordida e, para surpresa dele, detestou o produto. Olhou para o lado e deparou-se comigo e outro mendigo comendo acarajé. Convidou-nos para provar do panetone. Eu recusei, mas o mendigo que estava ao meu lado provou do panetone e como o outro, também, não gostou. Em retribuição deu o restante do acarajé para o dono do panetone que se deliciou com o pequeno pedaço. Ficaram os dois conversando ate passar um transeunte todo sujo e esfarrapado, desse tipo que ignoramos e fazemos conjecturas a respeito, empurrando um carrinho de madeira cheia de papelão e latas. Como o elemento tinha um semblante muitocarrancudo, talvez pela fadiga e cansaço, os outros dois, um pouco desconfiado, ficaram inseguros em abordá-lo, mas com um certo esforço ofereceram a ele um pedaço de panetone. O homem olhou, como não sabendo o que era aquilo, mas aceitou e, ao contrário dos dois, adorou e comeu muito do panetone. Em agradecimento, tirou de dentro do carrinho um pão de sal murcho recheado com salame e deu para os dois, que não só aceitaram, como se deliciaram com o novo lanche. Despediram-se e cada um tomou seu rumo.

Os povos se fecharam nos seus mundos e a cada dia se isolam cada vez mais dos seus semelhantes. Mas aqui em Montes Claros, onde existem hoje todas as coisas que chamam a atenção para sinais encantadores de uma boa vida, se não na infraestrutura ainda, pelo menos na convivência harmoniosa entre os seus moradores, ultimamente tem me chamado a atenção as atitudes de amor e solidariedade dos seus moradores.

Pessoalmente tenho vivenciado muitas situações bonitas. Nesse caso dos dois mendigos, pode ter sido um acontecimento banal, mas sinceramente eu fiquei emocionado e não consigo tirá-lo do meu pensamento. Eu, que leio muito, não encontrei em nenhum romance, em nenhum livro de autoajuda, em nenhuma tradução de estórias estrangeiras, nada que me marcasse tanto. Talvez por não ter sido um enredo fictício, talvez por ter sido uma cena real, palpável e bem na minha frente.

Quando as pessoas são solidárias, uma boa ação sempre provoca outras. Um presente oferecido por um senhor desencadeou uma sucessão de pequenos bons gestos. E se hoje estou expondo esses fatos, é apenas para deixar claro que devemos mudar nossas opiniões a respeito dessas pessoas ou pelo menos rever essas opiniões. Devemos não ser tão indiferentes a essas “pessoas nojentas” que, no nosso modo de entender, só bebem, roubam e estragam a imagem da cidade. Devemos ficar mais atentos a quem de fato rouba e denigre a imagem da cidade. Será quem são de fato os nojentos? Quem são os “engravatados e limpinhos?...” Eu vejo tantos políticos, intelectuais e artistas apregoando a solidariedade e o amor, o que acho até louvável da parte deles, mas será que palavras e suas “influências” resolvem alguma coisa? Para que tantas conversas, tantas reuniões e tantos “grandes acontecimentos”, para depois levar essas grandezas ao confinamento em seus mundos?

O que sei, é que homens que estão à margem da sociedade, passando fome, sentindo frio nas madrugadas nos bancos de praças, esses homens, que tinham todo direito à revolta interior, à amargura e ao ódio, é que me mostraram, pela naturalidade dos seus gestos, que a solidariedade desinteressada é que é a expressão pura do amor.

É claro que a lembrança desse acontecimento não me traz só imagem agradável. Sempre trará a imagem de homens esfarrapados e sujos, que vivem num sofrimento anormal, num isolamento absoluto, incompreendido pela nossa insensatez hostil.

Mas Graças a Deus, como eu dizia no princípio, aqui em Montes Claros vem se instalando uma consciência mais humana, despertada por um espírito de mais espontaneidade nas relações interpessoais. Apesar de ser uma das maiores cidades do Estado de Minas Gerais, apesar de toda evolução tecnológica e de aqui ser um berço cultural riquíssimo, nos recusamos a ser influenciados por essa sinistra maneira de amputar o contato direto com as pessoas.

Desejo a todos nós, não só os montes-clarenses, que esses costumes de solidariedade que temos por aqui, se fundem cada vez mais com os aspectos bons da evolução e tecnologia, pra nos fundamentar, cada dias mais, no trabalho da paz e do amor com os nossos semelhantes.

Se é insensato e errado sequer pensar que alguém possa viver apenas para arruinar a vida do próximo, então, está na hora de levar não só os nossos pensamentos como as nossas ações mais a sério e expressá-los na ponderação, decência e humanidade. Que comecemos dos nossos quintais e gradativamente espalhemos pela cidade de fora a fora.

Pode até parecer um sonho, mas com esses dons intrínsecos do norte-mineiro e com essa nova consciência, acho que nós aqui da região teremos a chance de ver tudo melhorar.

É claro que não conseguiremos acabar com a mendicância e com a miséria, pois a cidade é grande e convidativa, mas não podemos conformar com a indiferença e desprezo por essas pessoas. Enquanto um elemento desses sentir frio e passar fome, temos que nos manifestar e ajudá-los, de qualquer maneira. Nós que queremos bem a Montes Claros e a quem vier morar nela, temos o dever de fazer valer a velha máxima: “Que a vida valha a pena de ser vivida”.


Em nome desse sublime instinto arraigado em nosso ser, é que me embasa a esperança de uma vida melhor para nossos conterrâneos e estrangeiros que moram nesta cidade – esta sim, maravilhosa!

Nenhum comentário: