terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Moro num casa onde a janela dá para a rua. Fico daqui a digitar e a observar. No momento, diante de um sol causticante, vejo um carroceiro paralítico, sua mulher e dois filhos. A mulher vai à frente vasculhando as sacolas de lixo e separando garrafas plásticas de refrigerantes e diz algo que não pude entender, o marido e os filhos, enquanto arrumam as bugigangas, riem gostosamente de o que ela falou. O filho mais novo, usando um boné vermelho, lembra demais meu filho mais velho, fruto do segundo casamento, que mora com a mãe. Me dá vontade de chamá-los e oferecer um café. Não consigo. Choro copiosamente, choro como nunca havia chorado antes. A cena mexe comigo. Choro, não pela miséria deles, mas pela minha. Choro pela falta de um sorriso fácil que não tenho. O porquê de eu também não sorrir tão gostosamente? Pegando lixo, passando fome, a família está junta, pais e filhos sorrindo, apesar de, eu, barriga cheia, protegido do sol causticante, digitando, infeliz, apesar de...


xxxxxxxxx



Por que algumas pessoas, em plena posse dos objetos que tanto sonharam, não conseguem ser felizes? Porque, se antes de tudo, não existir amor, seja lá o que for o que vier, não terá nenhum sentido. Tenho um profundo pesar por essas pessoas, é muito difícil agradá-las. É difícil agradar a quem não tem amor. Pouquíssimas são as pessoas no mundo que amam simultaneamente o seu dinheiro e as pessoas. Eles anulam a si próprio e destroem os impulsos da alma. São meros joguetes de sua fortuna. Seja lá qual for a sua hierarquia na sociedade, nunca realizarão a si próprio. Nunca serão felizes porque o apego a bens materiais é compulsivo, quanto mais se adquire, maior é a vontade de adquirir mais. Se essas pessoas não recuperarem o domínio de si próprias, nunca alcançarão a parte mais nobre de sua constituição: o amor. Nunca verificarão que ser amado como um verdadeiro ser humano é muito diferente de ser respeitado pelo seu prestígio hierárquico social. Não terão a oportunidade de descobrir que o amor é a maior de todas as fortunas, é o maior de todos os dinheiros, pois o amor é capaz de supri-los, enquanto que a fortuna, dinheiro, as posses, sem ele, não passam de objetos, que servem a abjetos humanos.

Nenhum comentário: