segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Moro num casa onde a janela dá para a rua. Fico daqui a digitar e a observar. No momento, diante de um sol causticante, vejo um carroceiro paralítico, sua mulher e dois filhos. A mulher vai à frente vasculhando as sacolas de lixo e separando garrafas plásticas de refrigerantes e diz algo que não pude entender, o marido e os filhos, enquanto arrumam as bugigangas, riem gostosamente de o que ela falou. O filho mais novo, usando um boné vermelho, lembra demais meu filho mais velho, fruto do segundo casamento, que mora com a mãe. Me dá vontade de chamá-los e oferecer um café. Não consigo. Choro copiosamente, choro como nunca havia chorado antes. A cena mexe comigo. Choro, não pela miséria deles, mas pela minha. Choro pela falta de um sorriso fácil que não tenho. O porquê de eu também não sorrir tão gostosamente? Pegando lixo, passando fome, a família está junta, pais e filhos sorrindo, apesar de, eu, barriga cheia, protegido do sol causticante, digitando, infeliz, apesar de...


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Por que algumas pessoas, em plena posse dos objetos que tanto sonharam, não conseguem ser felizes? Porque, se antes de tudo, não existir amor, seja lá o que for o que vier, não terá nenhum sentido. Tenho um profundo pesar por essas pessoas, é muito difícil agradá-las. É difícil agradar a quem não tem amor. Pouquíssimas são as pessoas no mundo que amam simultaneamente o seu dinheiro e as pessoas. Eles anulam a si próprio e destroem os impulsos da alma. São meros joguetes de sua fortuna. Seja lá qual for a sua hierarquia na sociedade, nunca realizarão a si próprio. Nunca serão felizes porque o apego a bens materiais é compulsivo, quanto mais se adquire, maior é a vontade de adquirir mais. Se essas pessoas não recuperarem o domínio de si próprias, nunca alcançarão a parte mais nobre de sua constituição: o amor. Nunca verificarão que ser amado como um verdadeiro ser humano é muito diferente de ser respeitado pelo seu prestígio hierárquico social. Não terão a oportunidade de descobrir que o amor é a maior de todas as fortunas, é o maior de todos os dinheiros, pois o amor é capaz de supri-los, enquanto que a fortuna, dinheiro, as posses, sem ele, não passam de objetos, que servem a abjetos humanos.


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